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CELEBRANDO O ANO DO JUBILEU

21 jan

Man-Blowing-Shofar-for-Rosh-Hashanah-Giclee-Print-C12350930Chamava-se ano do Jubileu aquele que vinha depois de sete anos sabáticos (Lv 25.8 a 11). Este 50º ano era anunciado pelo som de trombetas, feitas de pontas de carneiro, no 10º dia do mês tisri, o grande dia da propiciação. A terra, como no simples ano sabático, devia ficar sem cultura, sendo os frutos somente colhidos pelos pobres – mas o povo podia caçar ou ganhar o seu sustento de qualquer outro modo. A maneira completa como eram efetuadas estas disposições fez considerar o jubileu como um tipo do Evangelho (Is 61.2 – Lc 4.19). O fim moral e espiritual destes dias festivos manifesta-se com toda a clareza. Todo o propósito era unir o povo pelos laços de fraternidade, e separá-lo dos pagãos – e, além disso, conservavam-se na memória os passados benefícios de Deus. A santidade do Senhor era patente nas disposições do jubileu. O peso dos pobres era aliviado, a opressão e a cobiça eram reprimidas, e todos aqueles atos solenes ou eram uma figura das bênçãos do Evangelho, ou sugestivos, para o crente, das verdades que haviam de ser inteiramente reveladas e realizadas em Cristo. O propósito do jubileu era dar a todo israelita o direito de recuperar a terra, que havia sido concedida aos antepassados. As casas das cidades muradas não estavam sujeitas à lei do jubileu, embora uma casa pudesse ser remida dentro de um ano após a venda – mas as casas em conexão com a terra do país, e deste modo essenciais à cultivação do solo, não eram excetuadas, devendo então voltar aos antigos possuidores no ano do jubileu. E da mesma sorte as casas das cidades levíticas não eram isentas da lei do jubileu. A terra, porém, que as circundava, e a elas estava ligada, não podia ser objeto de nenhum negócio, visto que nunca podia ser vendida sob qualquer condição.

Um conhecimento mais exato e mais respeitoso do patrimônio comum entre cristãos e judeus “pode ajudar a compreender melhor alguns aspectos da vida e da Igreja”. O Jubileu, assim compreendido, diz respeito somente aos cristãos. Entretanto, ele se inserta no “Jubileu Judaico” do qual dão testemunho tanto a Torá escrita quanto a Torá oral. “E como a Torá oral, através da tradição rabínica, desenvolveu os dados da Torá escrita, adaptando-se às novas situações, assim a prática Cristã do Jubileu tem a sua origem no antigo Testamento e continua ao longo da História da Igreja”. (Tertio Milênio Adveniente, 11).  Vejamos alguns aspectos do jubileu bíblico e, sucessivamente, o seu desenvolvimento na tradição judaica e na experiência cristã.

|1.O JUBILEU NA BÍBLIA

1) O texto fundamental do Jubileu bíblico – está no Levítico 25,10: “Declarareis santo o quinquagésimo ano e proclamareis a libertação de todos os moradores da terra. Será para vós um jubileu: cada um de vós retornará a seu patrimônio, e cada um de vós voltará a seu clã.”  No ano do jubileu todos os servos ou escravos estavam em condições de obter a sua liberdade (Lv 25.39 a 46 – Jr 34.8 a 14). As terras do país, bem como as casas das cidades dos levitas, que haviam sido vendidas durante os precedentes cinquenta anos voltariam para os vendedores, a não ser o que havia sido consagrado a Deus, e remido (Lv 25.17 a 28 – 27.16 a 24), igualmente as terras hipotecadas haviam de ser libertadas sem ônus algum.

2) Importante notar que a teologia subentendida – neste versículo fundamental está ligada ao sábado e ao ano sabático. Este último, baseado no Levítico 25,2. (“Quando entrardes no país que eu vos darei, a terra deverá guardar o seu sábado consagrado ao Senhor”) se situa no leque dos sete anos, assim como o dia de sábado se situa na semana. “Existe um sábado desde o começo… e um sábado da terra… Da mesma forma como na sexta-feira à tarde nós interrompemos o trabalho cotidiano para servir ao Eterno durante uma jornada, assim em Israel, só em Israel, o povo judeu tem obrigação de restituir a terra a Deus, para significar que, em Israel, a terra pertence a Deus”. (Samson Raphael Hirsch, rabino alemão do século passado).

3) Existem outros textos sobre o ano sabático – (Êxodo 23, 10 ss; (Lv 25.10-15,28-33; 27.17-23; Nm. 36.4; Ne 10.32) que põem em evidência sobretudo o aspecto social desta instituição. Daí, o tríplice imperativo do Ano Jubilar: a restituição das terras, o perdão das dívidas e a libertação dos escravos.

4) Um significativo antecedente bíblico da reconciliação – ligada à superação de situações passadas é representado pela celebração do Jubileu, tal como está regulada no livro do Levítico (cap. 25). Numa estrutura social composta por tribos, clãs e famílias, inevitavelmente se criavam situações de desordem quando indivíduos ou famílias em condições difíceis tinham de “resgatarem-se” a si mesmas das próprias dificuldades, entregando a posse das terras ou casa, ou de servos ou filhos, àqueles que se encontrava em melhores condições que as suas. Semelhante sistema tinha como efeito que alguns israelitas acabavam por sofrer intoleráveis situações de dívidas, pobreza e escravidão, naquela mesma terra que lhes havia sido dada por Deus, em proveito de outros filhos de Israel. Tudo isto podia levar a que, por períodos mais ou menos longos de tempo, um território ou um clã caísse nas mãos de poucos ricos, enquanto o resto das famílias do clã acabava por se encontrar numa dada forma de dívida ou de servidão, como a de viver em total dependência dos mais abastados.

5) A legislação de Lv 25 constitui uma tentativa de inverter tudo – (de tal modo que se pode duvidar que alguma vez tenha sido plenamente posta em prática!). Convocava a celebração do Jubileu, de 50 em 50 anos, a fim de preservar o tecido social do povo de Deus e restituir a independência mesmo à mais pequena família do país. É decisiva para Lv. 25 a regular repetição da confissão de fé de Israel no Deus que libertou o Seu povo mediante o Êxodo: “Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos fez sair da terra do Egito, para vos dar a de Canaã, a fim de ser o vosso Deus.” (Lv 25.38, 42,45) A celebração do Jubileu era uma implícita admissão de culpa e uma tentativa de restabelecer uma ordem justa. Todo o sistema que alienasse qualquer israelita, outrora escravo, mas agora libertado pelo braço poderoso de Deus, vinha de fato desmentir a ação salvífica divina no Êxodo e através dele.

2 . O JUBILEU NA TRADIÇÃO JUDAICA

1) A tradição rabínica retomou e questionou as leis – referentes ao Ano Sabático e ao Ano Jubilar, desde a época pós-bíblica. Considerando-as como um todo, ela as viu como aplicáveis somente na terra de Israel. Entretanto, as exigências éticas e sociais subjacentes continuaram fundamentais para o Judaísmo da Diáspora.

2) Na terra de Israel continuou-se a observar o Ano Sabático – mas, por causa da situação política e das dificuldades concretas, os rabinos simplificaram as normas, considerando-as como de origem talmúdica, não bíblica.

3) Depois que os judeus retomaram o trabalho da terra – no século passado  voltaram à prática do Ano Sabático, mesmo que se trate de uma pequena minoria. No que se refere ao Ano Jubilar, a verdade é que jamais ele foi observado desde a época do segundo Templo.

4) A partir da criação do Estado de Israel – No de 1948, não somente foi devolvida a terra da promessa aos judeus, como se tem processado o reviver da língua hebraica e do judaísmo bíblico com todas as suas festas e ricas tradições religiosas, inclusive o Jubileu.

5) Pelas  raízes bíblicas e históricas comuns ao ano jubilar – seria de se desejar que cristãos e judeus, apesar da profunda diferença de interpretação do Jubileu, colaboremos uns com os outros em vista de um mundo mais justo. É por esta razão que, mesmo em se tratando de uma iniciativa cristã da CB Shalom Internacional, a celebração do Ano do Jubileu pode ser enriquecida pela presença dos nossos irmãos judeus, convidados a participar como hóspedes privilegiados entre os representantes da tradição histórica.

3.O JUBILEU NA EXPERIÊNCIA CRISTÃ

1) A libertação das vítimas e dos que sofrem – torna-se parte do mais amplo programa dos profetas bíblicos. O Dêutero-Isaías, nos Cânticos do Servo sofredor (Is 42.1-9; 49.1-6; 50.4-11; 52.13-53.12), desenvolve estas alusões à prática do Jubileu com os temas do resgate e da liberdade, do regresso e da redenção. Isaías 58 é um ataque contra a observância ritual que não olhe à justiça social, é uma exigência de libertação dos oprimidos (Is 58,6), centrada especificamente nas obrigações de parentesco (v. 7). Mais claramente, Isaías 61 utiliza as imagens do Jubileu para fazer o retrato do Ungido como arauto de Deus enviado para “evangelizar” os pobres, proclamar a liberdade aos prisioneiros e anunciar o ano da graça do Senhor. De modo significativo, é justamente este texto, com uma alusão a Isaías 58.6, que Jesus usa para apresentar a missão da sua vida e do seu ministério em Lucas 4.17-21.

2) A tradição neotestamentária reconhece e acolhe a prática – do jubileu judaico e vê a realização do seu conteúdo nas “palavras” e nas “obras” de Jesus, que, entrando um dia na sinagoga de Nazaré, solicitado a comentar a passagem da Torá que se acabava de proclamar, aplica a ele próprio as palavras de Isaías, apresentando-se como enviado de Deus, como aquele em que começa a tornar-se realidade a utopia jubilar: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista: para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4.18-19).

3) No decurso do primeiro milênio – sucessivamente não há traços, na Igreja, da prática Jubilar. O Jubileu, como é celebrado na tradição Católica Romana, remonta a Bonifácio VIII, em 1300; consistia principalmente na prática da peregrinação; os cristãos iam a Roma, para visitar o túmulo dos apóstolos e pedir o perdão dos seus pecados.

4) Esta prática se repetiu com maior ou menor regularidade – a partir de 1300, diferenciando-se e distanciando-se da concepção judaica e priorizando o aspecto das “indulgências” e da “peregrinação”. Entre todos os Jubileus do passado, o que João Paulo II chama “o Grande Jubileu” do ano 2000 se reveste de uma importância particular, sobretudo pelo desejo de conversão e de autocrítica com que a Igreja católica celebrou. “Ela não pode transpor o limiar do novo milênio sem estimular os seus filhos a se purificar, a arrepender-se dos erros, das infidelidades, das incoerências, das lentidões”. (Tertio Millenio Adveniente, 33).

5) Tempos de restauração apostólico-proféticos –  A restauração do mundo ou a realização das promessas messiânicas.  A afirmação segundo a qual o ano jubilar pede a instauração da era messiânica, com o fim de todos os sofrimentos e de toda a violência. Se, por um lado, esta época se apresenta como um futuro cada vez mais longínquo, calculado pelo ritmo dos milênios que precederão o ano jubilar do quinquagésimo milênio, por outro lado coincide mais exatamente com a volta às origens, com a realização do projeto de Deus sobre a terra.

4. O QUE DEVEMOS FAZER NO ANO DO JUBILEU

Na teologia do Ano Jubilar se concentra uma multiplicidade de temas bíblicos e espirituais que sempre alimentaram e continuam a alimentar a vida do povo de Deus.

1) A impossibilidade de possuir a terra – A afirmação de que é impossível possuir a terra. Cumprindo o Shabbat, a terra impede ao homem de possuí-la; recusa uma relação de submissão e se opõe à pretensão do homem de reduzi-la a um objeto de dominação.

2) O Plano soberano de Deus –  Da afirmação de que Deus é o Senhor e Criador da terra se deduz que o homem não pode ter essa função. “A terra me pertence e vós não sois para mim mais que estrangeiros e hóspedes.” (Lv 25.23). Logo, na terra da qual Deus é o único e legítimo dono, o homem é um “estrangeiro”, um “inquilino”, no sentido de que ele é o “hóspede” de Deus.

3) A gratuidade da graça salvadora –  A afirmação de que o homem vive em uma terra que não é dele, mas de Deus, mostra que ele é um objeto de uma gratuidade ou graça, isto é, do amor desinteressado de Deus: “A terra dará seu fruto: comê-lo-eis com fartura e habitareis em segurança. Se disserdes: ´Que comeremos neste ano se não semearmos e não colhermos os nossos produtos?´- eu estabeleço a minha bênção no que colherdes no sexto ano, de modo que vos garanta produtos por três anos” (Lv 25.19-21).

4) A justiça do Reino –  A afirmação de que a terra é um dom de Deus para as necessidades da pessoa humana, dá a entender que ela é de todos e para todos; e o esforço de monopólio que negue ou bloqueie este destino universal é pecado contra Deus e contra o próximo. A justiça, coração da mensagem bíblica e, sobretudo profética, consiste em reconhecer o amor gratuito de Deus no mundo e a cooperar com ele fazendo da justiça o seu próprio modo de ser e de agir. Por isso, segundo o profeta, é “da justiça”, isto é, da ação justa que nasce a a paz, a plenitude dos bens para toda a humanidade (Is 32.15-20).  Isso indica o fim da desigualdade e da justiça. A afirmação de que a terra pertence a Deus e que todas as formas de exploração devem desaparecer, as que dizem respeito aos bens da terra e, sobretudo as que se referem ao homem nos enfrentamentos com o seu semelhante.

5) O perdão incondicional –  A afirmação segundo a qual o Ano Jubilar reclama e exige o perdão, coincidindo o seu início com a celebração do “Yom Kippur”, a grande festa da reconciliação: “No décimo dia do mês sétimo, fareis vibrar o toque da trombeta; no dia das Expiações, fareis soar a trombeta em todo o país” (Lv 25.9). O Ano Jubilar institui a possibilidade de um novo início, porque ele rompe não somente com o determinismo das desigualdades sociais, mas com a própria culpa individual. Tudo isso aponta para a missão messiânica do cristão e da Igreja.

5. PISTAS PARA UMA AÇÃO CELEBRATIVA DO JUBILEU

1) A Bíblia nos ensina que os bens do mundo não nos pertencem – que eles nos são confiados por Deus: quais são as consequências, para nós, ao fazer uso desses bens?

2) O termos “libertação” pode ter sentidos diversos – quais são os conceitos mais significativos para nós, hoje, individual e coletivamente, para “libertar-nos” e para “libertar”?

3) Em que consiste, hoje, a justiça social –  Onde situar as formas de injustiça social na sociedade, na Igreja nos bairros, na paróquia, no ambiente de trabalho e na família? Fazer algumas propostas concretas que permitam “fazer justiça”, pelo menos a uma pessoa, ou inserir-se em uma situação específica.

4) O ano jubilar está ligado ao sábado –  ao dia de repouso que nos liberta do trabalho e do “ativismo”. Como celebrar melhor o domingo e os dias de festa, para ser verdadeiramente livres: para nós, para os outros e para o Senhor?

5) A Violência Humana  e a solução dos conflitos – desafiam-nos a desenvolver técnicas de intermediação? Qual a contribuição específica da tradição Judeu-Cristã para construção da paz?

Apóstolo Jota Moura/Boston 28 de Dezembro 2007

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Publicado por em 21/01/2013 em MENSAGENS

 

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